LUMINOSA MANHÃ
"Uma dessas manhãs que nada pode estragar:luminosa,friozinho ameno,pessoas dividindo quase íntimas a delícia.O sol de inverno,muito baixo,enche os carros de luz através do para-brisas,bate nos olhos,obrigando os motoristas a baixar os quebra-sóis.
Sinal vermelho,todos param,nem por isso contrariados.Um rapaz no carro ao lado do meu põe o rosto ao sol,olhos fechados de prazer.
O louro intenso de uma cabeleira de mulher captura meus olhos no espelho retrovisor.Farta,cuidada,faiscando ao menor movimento,a cabeleira eclipsa a mulher sozinha ao volante.No primeiro momento,só existe a cabeleira hipnótica,incendiada pelo sol.Vencido o feitiço,posso ver: é moça e tem a beleza simétrica das louras.
Mas,ó meu Deus,que vincos são esses que se formam na testa?,que contração aperta esses olhos?,repuxa os cantos da boca?,estica os que se fecham apertados? E esse nariz vermelho e de repente socos compassados ao volante.A moça chora com raiva no carro de trás.
Inquieto e impotente,contemplo o drama pelo retovisor.Impossível largar e ir até lá,oferecer ajuda.Se o sinal abre,nem a manhã gloriosa me livra do buzinaço. Também poderia parecer intromissão.Melhor ficar quieto,em muda e encasulada solidariedade.Seria caso de morte??Não,começara diante dos meus olhos.Alguma revolta fora crescendo dentro dela,daí os socos no volante.Problemas com filhos?Não,muito nova.Dinheiro?Assédio sexual do chefe?Traição?Isso,traição!Mas como alguém poderia trair tanta beleza?Vem chegando um vendedor de flores.Num impulso,compro um buquê,abro minha porta,corro até o carro de trás,jogo as flores no colo dela e digo:
-Não chore,a manhã está linda e aquele sem-vergonha não merece!!
Corro de volta,entro,o sinal abre,tenho tempo de vê-la pelo retrovisor,sorrindo entre lágrimas,surpresa,balançando a cabeça como quem diz "que doido" e me acenando um adeus agradecido.
Ivan Ângelo.
O comprador de aventuras e outras crônicas
São Paulos,Ática,2003
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